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TRUE CRIME: OBSCURO FASCÍNIO

Por Mauro Mosqueira



True crime e dramas criminais são desejados. Em qualquer grande plataforma.


Jeff Dhamer e Ted Bundy. João de Deus e Elize Matsunaga. E o que aconteceu com a garota da foto e a garota do Vaticano? Pacto Brutal: O Assassinato de Daniella Perez foi o conteúdo original HBO Max mais assistido na América Latina em 2022, e possivelmente o top 1 no Brasil.


O que tudo isso tem em comum? O fascínio crescente do gênero true crime. Muita gente acha isso perturbador e um tanto mórbido: detalhes da vida de criminosos, suas vítimas, seus métodos e seus desfechos. Sinal dos tempos? Efeitos da Modernidade Líquida? Black Mirror? Bem, na verdade, esse fascínio é intrínseco ao ser humano. Pode não estar presente em todos, mas está lá guardado no nosso DNA. Segundo artigo da revista feminina online estadunidense Bustle, nos anos 1400, depois da invenção da Imprensa, o público europeu capaz de ler começou a consumir os populares “panfletos de assassinato”, tabloides baratos com histórias de crimes que foram manchete. Desde então, o true crime só se tornou mais popular e conquistou todas as plataformas.


É um dos fascínios públicos mais duradouros - e nossa obsessão humana por isso, segundo especialistas no artigo da Bustle, revela muito sobre nossa empatia, nosso amor pela narrativa e nosso desejo de sobreviver. Mas por que um artigo profundo sobre true crime está numa “revista feminina”? Vamos voltar a isso mais tarde.


Formato


Pode-se dizer que o true crime enquanto formato narrativo está presente em todas as plataformas e canais generalistas e verticais aos montes pelo mundo. Geralmente, nasce de forma jornalística e literária. No jornalismo, são as coberturas – sensacionalistas ou não – que atraem a indignação e a curiosidade da sociedade. No meio literário, livros cada vez mais populares destrincham esses mesmos crimes de grande impacto, sendo, inclusive, a plataforma de lançamento para o audiovisual.


E, uma vez no audiovisual, o formato escolhido garante uma potencial “imparcialidade” jornalística, lançando, inclusive, teorias controversas. As possibilidades de plataformas e formatos se multiplicam. Canais do YouTube, filmes, séries documentais, podcasts ... E por falar em podcasts, fala-se muito que esse é o lugar desse tipo de narrativa, graças a sucessos mundiais como o podcast “Serial”, que faz parte do grupo do New York Times.


No entanto, o site estadunidense Super Summary, especializado em resumos e análises literárias, aproveitou sua base de mais de 80 milhões de leitores para fazer uma pesquisa que ajudasse a desvendar o true crime em um extenso artigo para seus leitores (sim, true crime e literatura realmente são cúmplices narrativos). O resultado mostra que, quanto a plataformas, 92% dos entrevistados preferem seus crimes preferidos em shows de TV, seguido por filmes (66%), livros (37%) e, por último, podcasts (34%). Aprofundando esses dados, em um ano os entrevistados consumiram de true crime, em média, 84 episódios de TV; 44,4 capítulos de livros; 33,6 episódios de podcast e 20,4 filmes. E 58% dos entrevistados disseram que se interessam regularmente por formatos true crime.


A própria matéria do Super Summary faz referência ao fato da audiência pesquisada dizer que sua plataforma de escolha são os podcasts, mas indicarem que assistem muito mais true crime em TV. E essa não é a única pista enganadora no gênero.


A empresa neozelandesa Parrot Analytics, líder global em análise de demanda por conteúdo audiovisual via algoritmos, em seus “The Global Television Demand Report” de 2021 e 2022 usou o true crime como um dos subgêneros pesquisados em 10 mercados (EUA, Austrália, Brasil, Canadá, França, Alemanha, Itália, México, Espanha e Reino Unido). No “top ten” dos subgêneros mais demandados, o true crime figurou, em 2021, apenas nos EUA. E apenas na décima posição. Em 2022, não apareceu no “top ten” em nenhum dos mercados.


Porém, o subgênero crime drama performou melhor nesses dois anos. Num rápido comparativo 2021/2022:


  • O gênero crime drama apareceu entre os 10 mais demandados em todos os mercados pesquisados em 2021, sendo 6a a pior posição e 2a a melhor;


  • O mesmo gênero em 2022 subiu de posição em todos os mercados, com exceção de Brasil e México, onde se manteve na mesma posição, 3a e 4a respectivamente. No Canadá, houve ganho de 5 posições – da 6a para a 1a. Foi o mais demandado (1a posição) na metade dos mercados pesquisados e a pior posição foi a 4a.


Mas isso mostra uma queda do interesse por true crime? Não necessariamente. A primeira e óbvia análise dos dados é que tramas com crimes são extremamente relevantes nos formatos televisivos, não importa de ficção ou não-ficção. A segunda, menos óbvia e mais carregada de inferências, é que existe uma zona cinzenta entre true crime e crime drama, tanto na definição do gênero por institutos de pesquisa, estúdios, plataformas etc., quanto pela audiência, que no caso dos relatórios da Parrot Analytics é quem identifica com suas hashtags, comentários, likes e compartilhamentos a natureza do subgênero.


Dando força para essa análise, o fato da mesma pesquisa do Super Summary ter indicado que 73% dos pesquisados acreditarem que true crime é mais fascinante do que a ficção! É, não parece que esse subgênero está para perder força no futuro próximo.


As mulheres e o true crime?


Mas vamos voltar à pergunta lá do início do artigo: por que uma revista feminina faz uma análise profunda sobre true crime? A resposta é simples: as mulheres são a principal audiência!

A pesquisa da Super Summary indica a predominância feminina na audiência do true crime em quase todas as plataformas. No período de um ano, as mulheres consumiram 51,6 capítulos de livros (homens – 32,7); 41,1 episódios de TV (homens – 21,7) e 94,5 episódios de podcast (homens – 68,5). As mulheres apenas perderam em audiência nos filmes: 20,1 contra 22,4 para os homens. Novamente, uma inferência possível. Uma provável confusão com filmes de ação, notoriamente preferidos por audiências masculinas.


Vale lembrar também que true crime não se trata apenas de mortes e serial killers. O site estadunidense líder de aprendizado em escolas e universidades StudySmarter, em artigo sobre o subgênero, definiu as suas principais temáticas, além do clássico Homicídio.

São eles: Fraude, Roubo, Julgamento e “Ativismo”, no caso a luta por justiça e por provar a inocência de alguém.


E essa variedade explica a forte presença feminina: há crimes para todos os gostos! E narrativas também. A pesquisa do Super Summary indica os aspectos da narrativa true crime que mais engajam os espectadores, sendo:


• mistério e intriga – homens 85% / mulheres 88%;

• aspectos psicológicos – homens 72% / mulheres 81%;

• “good storytelling” – homens 73% / mulheres 72%;

• curiosidade – homens 71% / mulheres 72%;

• assunto geral – homens 59% / mulheres 69%;

• perseguição criminosos X justiça – homens 52% / mulheres 47%;

• legal / procedimentos de tribunais – homens 41% / mulheres 48%;

• ver a justiça sendo feira – homens 29% / mulheres 34%;

• informações relevantes – 31% para ambos.


Apesar dos percentuais não se diferenciarem tanto, homens tendem um pouco mais para os aspectos de ação do gênero e as mulheres para aspectos relacionais. No entanto, boa narrativa; o gancho da curiosidade e as informações relevantes são quase que igualmente importantes para ambos. Especialmente, esse último item vem corroborar os especialistas que afirmam ser a nossa ânsia por sobrevivência um dos atrativos do true crime.


Mas mulheres estão quase 10% à frente dos homens no interesse geral do assunto! E para finalizar: mais estranho que a ficção ... e mais legal também!


Perguntados na pesquisa sobre o que o true crime era mais que a ficção, as respostas mais relevantes foram: fascinante (73%); chocante (71%); memorável (68%); engajador (64%) e satisfatório (58%).

Pois é, tudo indica que true crime e seu irmão de gênero crime drama têm muito fôlego para novos e “melhores” crimes.


Nascidos ou inspirados pelas reportagens e pela literatura investigativa de jornalistas e especialistas criminais, a proximidade entre as narrativas audiovisuais e a produção editorial é inegável. São mãe e filha e se retroalimentam.


Não é à toa que boa parte da pesquisa para esse artigo bebeu de fontes jornalístico-literárias. E não é à toa que, tanto para true crime quanto para crime drama, as propriedades intelectuais mais relevantes virão dessas mesmas fontes. Porque a força e relevância dessas narrativas vêm do mundo real e do detetive em nós. Como diria Agatha Christie, a Grande Dama Mundial do Crime, “a verdade, por mais feia em si mesma, é sempre curiosa e bela para os que a buscam.”

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