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  • Foto do escritorFelipe Boclin

O tema é Diversa-idade em conteúdo



Em um recente estudo do Telecine sobre Gêneros & Emoções, colhi algumas palavras que, ainda que pareçam óbvias, sempre são importantes quando falamos de sociedade, engajamento e conteúdo.


  • As emoções são contextuais. O contexto impacta nas emoções que sentimos e nas emoções que queremos sentir.

  • Mesmo as emoções mais constantes como alegria, tristeza e medo, por exemplo, podem ser ressignificadas pelo contexto em que se está inserido.

  • O entretenimento não é apenas sobre escapismo, mas também sobre entender a si próprio e o outro.


Vamos falar sobre etarismo

Um dos temas mais importantes da atualidade, que vem movimentando indústrias e comportamento, está no envelhecimento da população mundial. Relatórios e estudos não faltam para comprovar que o resultado da queda de fecundidade, da taxa de mortalidade e do aumento da expectativa de vida irá modificar os gráficos geracionais.

O relatório da ONU “Revisão de 2022 das Perspectivas da População Mundial” aponta que, até 2050, o aumento da população no planeta se dará mais pelo aumento da expectativa de vida e da redução nas taxas de mortalidade do que das taxas de natalidade. Ou seja: mais idosos no mundo.

O mesmo estudo diz:


  • longevidade média global de cerca de 77,2 anos em 2050;

  • população global com 65 anos ou mais deverá aumentar de 10% em 2022 para 16% em 2050.


Esse contexto faz da atualidade o período com a maior convivência geracional registrada, ou seja, de três a quatro gerações vivendo de forma ativa em sociedade.

Se o entretenimento é também sobre significado, o audiovisual reflete esses efeitos em algumas perspectivas.

Representatividade

Vejam o Oscar 2023: melhor atriz e melhor ator, melhor atriz coadjuvante e melhor ator coadjuvante – todos acima dos 50 anos de idade. Na ordem decrescente e usando a idade que completarão em 2023: Jamie Lee Curtis (65 anos), Michelle Yeoh (61 anos), Brendan Fraser (55 anos) e, o caçula, Ke Huy Quan (52 anos).

Na década de 90, o sucesso cinematográfico “The First Wives Club” trazia Goldie Hawn como uma das três protagonistas maduras. Sua personagem, uma atriz de sucesso em Hollywood, enfrentava o dilema de envelhecer frente às câmeras e ver cada vez mais papéis escapando por entre os dedos. Num desabafo ela diz: “As mulheres em Hollywood têm apenas três idades: “Babe”, “District attorney” e “Conduzindo Miss Daisy”.

Mas as coisas mudaram de 1996 para cá? É importante refletir sobre como a representação na tela impacta também a representatividade de atores idosos. Afinal, com a honrosa exceção de Jamie Lee Curtis, os demais vencedores do Oscar apenas acabaram de chegar ao que podemos chamar de idade madura.

Jovens mais velhos ou velhos mais jovens?

É comum na indústria que atrizes e atores “jovens” representem personagens com idade mais avançada, aqui alguns exemplos:

“The Dig” (Netflix, 2021) causou polêmica e gerou críticas na internet porque sua protagonista, Carey Mulligan, aos 35 anos, interpreta uma mulher real que na altura dos eventos teria 56. Uma diferença de 21 anos! Pedro Pascal, do sucesso “The Last of Us” (HBO, 2023), se viu elevado ao papel de coroa mais desejado do mundo com o seu Joel, um homem durão de 56 anos. Pascal mal completou 48!

O site stephenfollows.com, que faz análises da indústria do audiovisual a partir de dados estatísticos, mostra que em 2000 a média de idade dos três atores de maior bilheteria nos cinemas era de 37,8 anos. Vinte anos depois, em 2019, havia crescido para 42,4. Em análise feita pelo mesmo site em 2022 para os filmes lançados naquele ano e levando em conta os três principais atores listados, em cada produção a média de idade caiu para 39,4 anos.

Essa representação mais jovial talvez seja um recurso de conforto de percepção para todas as gerações. Afinal, ajustar conceitos equivocados sobre o envelhecimento é uma das principais necessidades da contemporaneidade.

Em estudo feito pelo GNT sobre Etarismo no Brasil mostra que 56% da amostragem de pessoas com mais de 50 anos não se sentem com a idade que possuem.

Consumo

O site stephenfollows.com fez uma análise de 662 filmes lançados no Reino Unido (de várias nacionalidades) entre 2005 e 2016 para verificar quais gêneros têm mais afinidade com as audiências mais maduras.

A faixa etária mais madura no levantamento é a de 45+, muito usada no audiovisual. Por gênero, ela é mais aderente com Drama (28% da audiência), Romance (24%) e Mistério/Suspense (22%). Gêneros como Terror, Animação, Sci-fi e Ação performam pior nessa faixa.

Uma análise possível seria dizer que as escolhas de conteúdo do público mais maduro e representativo refletem questões emocionais e sensíveis, por isso o Drama é tão poderoso quanto gênero para trazer questões sociais com impacto em todas as faixas geracionais.

Nada é tão universal quanto ao envelhecimento.

Gênero

Em 2021, a Hollywood Reporter listou os 10 filmes recentes que abraçam a velhice como tema e a representam realisticamente: “The Intern” (2015); “The Bucket List” (2007); “Calendar Girls” (2003); “About Schmidt” (2002); “I’ll See You My Dreams” (2015); “The Internship” (2013); “Mr. Morgan’s Last Love” (2013); “The Best Exotic Marigold Hotel” (2011); “Up” (2009) e “A Walk in the Woods” (20015).

Nessa bem variada lista, podemos ver que, apesar de uma Animação (Up) e de uma comédia (The Internship), os demais títulos gravitam em torno do Drama e da Comédia Dramática.

Temáticas & Comportamento

O mais importante é ver que em todos os casos há sim uma representação mais realista dessa faixa etária. Seus personagens enfrentam questões como a proximidade da morte e a diminuição de oportunidades na vida, seja no amor ou no profissional. Mas também aspectos motivacionais e positivos de continuar na ativa.

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OBS: A questão profissional é psicologicamente altamente impactante. Dados da mesma pesquisa do GNT dizem que apenas 11% das empresas brasileiras da amostragem possuem programas de contratação de profissionais maduros. Estar em movimento e em atividade, mesmo que não profissionalmente, em idade avançada, é vital, inclusive para evitar o isolamento. Quando a atividade profissional não supre mais isso, caberá aos filhos uma participação ativa na vida dessa geração, ainda mais quando inspira cuidados médicos.

Conteúdos sobre a responsabilidade dos filhos, já adultos, no cuidado e atenção aos idosos é de altíssima relevância, como muito bem abordado em “The Father” (2020), com Anthony Hopkins.

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Entender os maduros por meio de uma lente comportamental nos permite identificar diferentes padrões de conduta entre eles, que o estudo apresentado pelo GNT definiu em grupos e subgrupos de faixas etárias:


  • Autossuficientes: 50-54 anos: está tudo certo, vamos em frente!

  • Sábios: 50-54 anos: valho pelo que sei, pelo que vivi e pelo que acumulei.

  • Agregadores: 65-74 anos: o sentido da vida está nas relações com os outros.

  • Cuidadores: 54-64 anos: carinho, afeto e generosidade.

  • Exploradores: 55-65 anos: velhice e ousadia combinam, sim.


Streaming

Em termos de séries, especialmente no streaming, a situação não é diferente para todo o contexto apresentado. Mas a “liberdade” que o conteúdo de nicho e o modelo de assinatura proporcionam levam essa representação a novos níveis de temática e diversidade.

Algumas séries são comédias de sucesso, como “Gracie and Frankie” (Netflix, 2015) e “Transparent” (Amazon, 2014), com personagens que revelam suas verdadeiras sexualidades e identidades de gênero na terceira idade. Outros são dramas, como “Navillera” (TVN, 2021 – mundial: Netflix), série sul-coreana onde um homem na casa dos 70 e com Alzheimer sonha em se tornar bailarino e dançar o Lago dos Cisnes, ou “The Kominsky Method” (Netflix, 2018), com os veteranos Michael Douglas, Alan Arkin e Kathleen Turner. Não podemos deixar de mencionar o buzz que gerou “Only Murders in the Building” (Hulu, 2021), comédia de mistério que teve como destaque a química entre os protagonistas intergeracionais: dois na terceira idade e uma millennial.


Conclusão ?

E, afinal, o “novo conceito de velhice” existe no audiovisual? Sim, podemos dizer que há espaço para essa nova representação do idoso. E esse espaço tende a aumentar. Como vimos na análise, embora ainda haja problemas de “sub-representatividade”, ela tende a melhorar acompanhando o envelhecimento da população mundial e o aumento do peso da terceira idade na economia.

E quanto às temáticas (representação do idoso), podemos dizer que evoluiu até mais que a representatividade, especialmente no TV e no streaming. Histórias que abordem, sob o gênero Drama, os diferentes aspectos da idade - sua vitalidade, mas também seus conflitos - são importantes e relevantes para todas as principais faixas geracionais de audiência.


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