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  • Foto do escritorFelipe Boclin

Conteúdo LGBTQIA+ e o Streaming


“Bros”: uma comédia romântica gay e o que deu errado com ela?

Ao olharmos oportunidades de conteúdo, nós da The Creators Bridge analisamos a aderência da demanda em gênero e subgênero para identificarmos os “whitespaces” de produção local.

Conteúdo com o foco no público e no tema LGBTQIA+ é uma dessas oportunidades, enquanto demanda e posicionamento. Em recente estudo pela Parrot Analytics, indica que o Brasil é um dos principais países com alta demanda e pouca disponibilidade de conteúdo, inclusive de produção nacional.

A série da Netflix Heartstopper é um case interessante. Além do resultado de audiência objetiva, quando o país ficou no ranking dos TOP10, também foi a região que mais gerou buzz da produção inglesa no mundo. O volume de comentários ultrapassou 2,3 milhões de tweets entre usuários brasileiros, ficando a frente dos EUA na semana do seu lançamento.

Trend

No ano passado começou a se consolidar uma tendência no que poderíamos chamar de “cinema LGBTQIA+”: o aumento de títulos em um gênero narrativo que anteriormente não era muito relacionado a esse “grupo demográfico” – a Comédia Romântica.

Embora um dos títulos mais prestigiados fosse Spoiler Alert, com Jim Parsons, que está mais para um drama romântico, outros lançamentos buscavam afastar personagens gays do clássico destino trágico. Essas histórias buscavam construir narrativas sobre relacionamentos gays que se aproximassem dos cânones da Rom-Com – busca pelo amor verdadeiro; encontros e desencontros; alguma ingenuidade e, claro, final feliz!

Embora um relatório da GLAAD (Gay & Lesbian Alliance Against Defamation) de 2022 mostre que apenas 16 dos 77 filmes lançados em cinemas nos EUA retratavam personagens LGBTQIA+, percebe-se um aumento na representatividade e também na diversidade de temas e gêneros voltados para esse público, especialmente se contarmos os lançamentos em plataformas de streaming.

Mas isso traz outras reflexões importantes: seria o cinema a melhor plataforma para a Rom-Com gay? Seria o streaming, com suas comunidades de gosto e efeito de cauda longa, o lugar das narrativas LGBTQIA+? No que as histórias dessa comunidade têm de ativismo e transgressão sabemos que sim. Mas será que mesmos as narrativas mais mainstream encontram nessas plataformas o seu melhor lugar de sucesso?

Estratégia de janelas

Para responder essas questões – ou apenas trazê-las para uma reflexão – vamos usar como exemplo o filme Bros, de Billy Eichner. E fazer algumas comparações.

Bros foi uma dessas apostas. Distribuído por um grande estúdio (Universal), apresentado como uma das primeiras rom-coms com elenco majoritariamente gay, contou com boa divulgação por parte do Marketing do estúdio e ... flopou no cinema! Fez um total de US$ 4.8 milhões no final de semana de abertura em 3.350 salas de cinema.

Há “trocentas” análises do porquê nos mais variados veículos especializados. As explicações – quase sempre comparando com comédias românticas mainstream - são muitas, todas lógicas e válidas. Resumidamente: o Billy Eichner, autor e também estrela do filme, é bastante conhecido na “comunidade”, mas, segundo analistas, faltou um nome de peso no elenco (fora do nicho); o Bros foi vendido como uma rom-com gay para o grande público, especialmente heterossexuais, uma forma de “abrir a cabeça” de conservadores para a “heteronormatividade” das relações homossexuais.

O tiro saiu pela culatra: desagradou gays, não atraiu heteros neutros (talvez pela falta de um nome de peso) e atraiu a ira de heteros conservadores; a experiência de ir ao cinema não é ativismo, é entretenimento.

Isso pode não ser verdade para certos gêneros cinematográficos e grupos engajados com certos temas, mas certamente é para o público “médio”, ainda mais se tratando de uma comédia romântica; o que quebra de alguns cânones da comédia romântica. Um deles: cenas de sexo um pouco mais quentes, que valeram um R-rated (adultos) num gênero que costuma receber classificações PG (crianças) e PG-13 (adolescentes 13+).

Tudo isso faz sentido, mas só podem explicar o fracasso numa combinação desses e de outros fatores. E aí cabe nossa comparação com outras Comédia Românticas gays que fizeram sucesso.

Já no streaming...a força do gênero e do subgênero

A falta de um nome de peso no elenco pode ser um problema no cinema, mas parece ter menos impacto em comédias românticas (hetero ou gay) no streaming. Nessas plataformas, há outros fatores que podem minimizar essa questão: a busca por conteúdo para esse público específico, o ambiente de experiência “controlado”, o boca a boca na comunidade e até mesmo algum tipo de fan base pré-existente.

Heartstopper (Netflix, 2022), já mencionada acima, uma rom-com gay adolescente, foi sucesso mundial na plataforma, mesmo sem atores famosos nos papéis principais, mas é adaptação de uma série de comic books da autora inglesa Alice Oseman, que a publicava gratuitamente na internet. Da audiência que já conhecia a obra original para o sucesso em público mais amplo a diferença foi a recomendação em redes sociais. Vale lembrar que a geração Z é uma das que mais assiste a filmes e séries a partir de recomendações de suas comunidades de gosto.

Além disso, já há uma ampla lista de produções teens com personagens e temática LGBTQIA+, como “Elite”, “Young Royals”, “Sex Education”, “First Kill”, “Heartbreak High”, só para fazer um apanhado rápido. A maioria passeia por outros gêneros que não a comédia romântica e nem todas foram o sucesso esperado – “First Kill” foi cancelada com uma temporada, por exemplo.

Mas o público teen, a geração Z e suas comunidades de gosto, também emplacaram no cinema e no streaming os sucessos mundiais “Love, Simon” (2018) e seu spin off “Love, Victor” (Hulu, 2020) que, no entanto, respeitam todos os cânones da Rom-Com!

E por falar em comunidades de gosto, voltamos ao ponto de Bros ter sido vendida como rom-com gay para heteros. Se fosse num ambiente de nicho, como uma plataforma de streaming, já seria um risco focar numa zona de interseção entre comunidades de gosto.

Em lançamentos no cinema pós-pandemia – deixar o conforto do sofá, pagar pelo ingresso (a assinatura no streaming traz uma certa sensação de custo amortizado), deslocar-se até o cinema ... não é para todos.

Contexto

Quando se trata de temática gay, quando ainda vivemos uma forte polarização progressistas X conservadores, ampliamos as chances de o tiro sair pela culatra, como foi o caso. E isso nos leva ao ativismo.

Uma pesquisa feita esse ano no Reino Unido pela YouGov (empresa de pesquisa de mercado inglesa) mostra que 44% dos britânicos acreditam que a comunidade LGBTQIA+ é superestimada no cinema e na TV, não representado sua realidade numérica na sociedade. Produtos que buscam ampla audiência precisam – no mundo todo - furar a bolha desse tipo de mentalidade.

Finalmente, quanto aos cânones da rom-com, a quebra das expectativas em relação a esse gênero narrativo (ou a quebra do “contrato” que se faz com a audiência típica desse gênero) não é novidade e nem sozinha pode ser considerada a razão do “flop”.

Sucessos como Bridesmaids e Trainwreck (de Amy Schumer) mostram isso. Mas quando se trata de um casal gay em situações afetivas mais realistas parece que novas camadas de risco vão sendo adicionadas.

Smiley (Netflix, 2022), comédia romântica gay espanhola, chegou a figurar entre as 10 mais assistidas na plataforma no Brasil. Baseada numa peça encenada há 10 anos, apenas na Espanha, sem atores conhecidos, falada em espanhol, sem forte divulgação (o trailer nem legendado era) e com bastante sexo furou essa barreira de alguma forma. Cenas de sexo e linguagem mais pesada parecem não causar tanto problema se a narrativa realmente gira em torno da busca pelo amor verdadeiro e se os protagonistas preservam alguma ingenuidade.

Conclusão

Voltamos ao ponto da janela usada para Bros. Não estamos dizendo que o principal erro foi a janela em si, no caso o “cinemão de Hollywood”. Mesmo as narrativas transgressoras muitas vezes encontram um público amplo, por vários acertos – alguns imponderáveis – e também por evitarem alguns dos erros mencionados aqui.

Mas parece lógico também que o streaming - com características como comodidade, intimidade controlada, comunidades de gosto, recomendações (da plataforma e de fãs), catálogo disponível via assinatura e cauda longa – parece ser o lugar mais seguro de sucesso para quem quebra regras em gêneros tão consolidados, alcançando não apenas o público vertical, que cresce, mas também o horizontal quando se apropria do mainstream sob o gênero de comédia romântica.

Sucesso de nicho, talvez. Mas ainda assim sucesso!

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